Uma visita à township de Madadeni
Como se estivesse sendo transportada diretamente para um documentário sobre o apartheid. Era assim que me sentia no caminho entre Newcastle, cidade onde estou morando na África do Sul, e Madadeni, a township mais próxima. Durante o regime segregacionista, os negros eram obrigados a deixar as cidades e seus espaços públicos para se mudar para as townships, áreas separadas das "cidades" principais. Geralmente esses locais tinham condições precárias de vida, com barracos pobres de zinco, além de lixo e esgoto a céu aberto. Era assim que eu os imaginava, tal qual foram retratrados no filme "Cry Freedom" (1987).
Durante a Copa, as constantes reportagens feitas em Soweto, a maior township do país africano, localizada próxima a Johannesburgo, mostraram um local bem desenvolvido e com casas de fazer inveja a alguns dos bairros de classe média e baixa de cidades do Brasil. Mesmo assim, ainda imaginava Madadeni como um lugar de infra-estrutura precária, como muitas outras townships do país. Em visita na semana passada a um dos jornal regionais, o Newcastle Advertiser, puxei conversa com Bruce Douglas, jornalista que eu estava acompanhando, e perguntei sobre o local. Para minha surpresa ele me disse que a township era até bem desenvolvida, tendo em vista seu passado. "Eu me sinto mais seguro em alguns lugares de Madadeni do que de Newcastle. A única coisa que você precisa fazer é evitar os bairros onde há ações de gangues nas townships", contou Bruce. E prometeu me levar lá no dia seguinte.
| Barracos mais simples em Madadeni, e muito lixo espalhado por todos os lugares |
Promessa cumprida, seguimos o caminho. Ao entrar na cidade, Bruce me advertiu: "É melhor colocar sua bolsa no chão do carro. Só por segurança". Ok, pensei. Mas fiquei com a sensação de que talvez o lugar não fosse assim tão seguro quanto ele tinha me dito no dia anterior. Realmente, a experiência não foi tão calma. Enquanto rodávamos de carro pela avenida principal, que contorna Madadeni, muitos habitantes, todos negros, olhavam-nos com curiosidade. A sensação era de sermos a atração e a exceção do lugar. Ao longo do caminho tirei fotos, todas de dentro do carro em movimento. Queria descer e conversar com algumas pessoas, mas Bruce disse que não era uma boa ideia. Além disso, tivemos que contornar a cidade pela avenida principal, pois não é seguro andar pelas ruas secundárias que passam no meio das casas.
No entanto, tenho que admitir que fiquei impressionada com a township. Madadeni é bem grande e lá muitas das residências têm eletricidade e esgoto. As ruas principais são pavimentadas e, no caminho, foi possível ver muitas escolas, algumas locais e mais simples, outras grandes e bem desenvolvidas. Muitas das casas têm uma estrutura ótima, com jardins e tudo o mais. Lógico que durante o percurso era possível ver barracos mais simples de zinco e muito lixo, mas Madadeni conta até com um "centro" e um supermercado grande. Certos hostels, estruturas parecidas com prédios para os quais os negros eram obrigados a se mudar durante o apartheid, estão sendo restaurados para se tornarem habitáveis de novo. Quando estávamos saindo da cidade, Bruce me mostrou o "estádio" pertencente à township e acrescentou: "Em Newcastle nós não temos um".
| Ruas pavimentadas e casas bem cuidadas |
Lendo um documento sobre a cidade, descobri que Madadeni foi planejada para ser uma township modelo. Acredito que em parte tenha funcionado, mas ainda assim o lugar está longe de chegar a ter a mesma infra-estrutura da cidade de Newcastle, mesmo tendo 116 806 habitantes segundo o Censo de 2001 - ou seja, quase a metade da população total da região metropolitana de Newcastle, que compreende Madadeni e outras pequenas "cidades", como Ladysmith, e muito maior do que a população que vive de fato na cidade principal de Newcastle. Observando outros dados do Censo, é possível notar que Madadeni ainda é um retrato do apartheid: 99,8% da população é negra e 94% ainda é considerada "indigente", principalmente por ter sido afastada por décadas das atividades econômicas principais da região.
Veja mais imagens da Madadeni na galeria do (vi)Vendo a África do Sul.